top of page

A Liberdade que o Dinheiro Não Compra


Depois de Portugal celebrar o 25 de Abril, fica a reflexão sobre os nossos marcos de liberdade e sobre o nosso futuro enquanto mulheres. Podemos ser ainda maiores do que a imagem que projectamos?


Mulheres são corajosas. Por isso, convido-nos a uma reflexão. Como clube que fala de liberdade, qual a bandeira que verdadeiramente erguemos? O que nos conecta depois de um evento?


O dinheiro move o mundo, representa poder.. Dá-se às vezes a impressão de que o som é sempre o mesmo: os diferentes sotaques sobre a mesma língua, o dress-code, os gestos estudados e o aroma denso de perfumes caros. Estamos todas aqui, no Clube, a aplaudir umas às outras. Eu inclusive. Sorrio, ajusto a postura, encolho a barriga, troco cartões de visita. É um mise-en-scène de roteiro previsível.


Preciso aprender muito a fazer network, é uma constatação. Quando a agenda permite, às vezes, em meio aos salões onde nos reunimos questiono-me: que liberdade é esta que nos condiciona a ter quAse todas um padrão de oratória e narrativa de autoridade e superação embalada em um figurino e estética impecáveis? Jogar o jogo? Se a liberdade conquistada nos tranca em uma nova cela então a revolução ainda não terminou.


Na Biografia Humana, compreendemos que a vida é como uma espiral de desenvolvimento em setênios, períodos de 7 anos. Até aos 21 anos, construímos o nosso corpo e as nossas bases. Dos 21 aos 42, mergulhamos no mundo, lutamos por espaço, erguemos respeitáveis carreiras, empresas e nomes. É o tempo da experimentação, organização e consciência. Mas é após os 42 anos (ou deveria ser), ao atingirmos a maturidade, que o "Eu" espiritual deveria começar a governar a matéria, onde o "ter" deveria ceder lugar ao "ser" e tais polaridades encontrarem seu equilíbrio.


O drama que nos ameaça é um fenômeno de estagnação anímica. Tornamo-nos adultas poderosas, com recursos abundantes, e parecemos presas emocionalmente ao desejo de aprovação do segundo setênio, para por autoafirmação pertencermos a uma tribo.


Pouco falamos de questões e investimentos sociais, mas gastamos com imagem. Anunciamos o potencial de movermos uma força telúrica e mal falamos verdadeiramente sobre ela.


A genuína sororidade exige uma vulnerabilidade que o autoengano do poder e do sucesso não alcançam. No íntimo, sabemos que o nosso sucesso é frágil. Ele depende da manutenção de uma fachada. É como um mar onde frases motivacionais e jargões de alta performance ofuscam o pensamento crítico.


A pergunta que não quer calar em meio aos eventos ora matinais, ora de gala, é: estamos a ganhar dinheiro através dos nossos negócios a serviço de que? Para transformar o mundo em um lugar melhor ou para financiar a nossa submissão ao olhar do outro, ao algoritmo do Instagram, à validação.


Importante como o ar, o dinheiro é como o sangue no organismo social: ele precisa circular para onde há necessidade, para onde pode gerar vida plena. Quando o dinheiro fica retido apenas como instrumento de poder, ele mina a individualidade e leva ao individualismo. Aí corremos o risco de tornamo-nos tediosas e pirosas.


A revolução que falta ainda é a da alma, da autenticidade autoconsciente, poder que vem de dentro e não de fora,. É o momento em que decidimos que a nossa biografia é sagrada demais para ser reduzida à imposta vaidade social e financeira.


Aos 40, 50 ou 60 anos, a vida exige fruto, aquilo que entregamos ao mundo a partir da nossa verdade mais profunda.


Precisamos de uma nova revolução que troque excessos de glamour e conquistas pela escuta biográfica, a ostentação pela responsabilidade social estratégica e o constrangimento do envelhecer pela honra de se tornar uma anciã sábia e poderosa.


A liberdade vai além de comprar o que nos influenciam a comprar e como nos comportar, é ter a coragem de não precisar de nada disso para apropriar-nos de nosso valor.


Nós, que conquistamos o direito de estar em qualquer mesa de negócios do mundo, a falar a nossa língua, podemos aprender mais sobre a linguagem do feminino e da nobreza que vive no que é natural e simples.


O luxo da Beleza, Bondade e Verdade o dinheiro não compra, mas é o único que realmente nos liberta como seres humanos e comunidade.


A liberdade que o dinheiro não compra é a do Ser (e ser nos coloca frente a uma angústia que nem sempre é fácil de lidar). Que o nosso próximo brinde seja à coragem de sermos, f inalmente, quem nascemos para ser, e não a cópia produzida de uma ideia de sucesso que já parece obsoleta e artificial.


Eu sei que o dinheiro move o mundo e precisamos dele. Proponho irmos além, aprofundar nossas conexões ser maiores em ética, humanidade e prosperidade: qual o sonho de igualdade, fraternidade e liberdade que cada uma de nós traz para o nosso Clube de Negócios em Língua Portuguesa?


Afinal, nós mulheres movemos o destino!




POR REGINA RAPACCI


Regina Rapacci Ignacio, 57 anos, é especialista em Jornalismo Literário e fundadora da editora Biografias & Profecias. Administradora com olhar voltado ao Aconselhamento Biográfico, coordena a formação da área em Portugal e co-fundou A Casa do Biográfico (www.acasadobiografico.com). Com mais de 70 projetos produzidos, dedica-se a despertar o protagonismo feminino através da escrita e do resgate de memórias.


 
 
 

Comentários


bottom of page